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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Piscinões contra enchente não é solução. Manifesto por cidades melhores

No Parede de Meia, o Fernando, ao falar sobre o Centro Administrativo de Minas Gerais, comenta que deparou "com esse elefante branco projetado pelo centenário Niemeyer que servirá de centro administrativo do estado." Segundo Fernando, a obra "não havia nenhuma forma de compatibilização entre os vários projetos, erros primários relativos a insolação, absoluta ausência de detalhes. Pra não falar na oportunidade perdida. Com o centro da cidade esvaziado, as secretarias e autarquias estaduais poderiam ter se instalado em dezenas de edifícios que estão sub-ocupados."

Comentei no post do Fernando que ele ficaria chocado quando revisitasse as favelas. Pois o que acontece no Centro Administrativo de Minas Gerais é o mesmo que acontece nas favelas, no Arrudas, em nossas cidades. Senão, vejamos.

Construiram, no Aglomerado da Serra, uma avenida de 16 metros de largura, a Via Cardoso. Um paredão de concreto que dava para construir "zilhões" de prédios populares que a prefeitura construiu "democraticamente" na favela. Fizeram uma contenção monstruosa e desnecessária. Tirantes e concretos absurdamentes desproporcionais para a área.

Segundo o Edézio Teixeira, em seu livro Geologia Urbana para Todos: uma visão de Belo Horizonte, temos o conhecimento técnico e o conhecimento do lugar e não o utilizamos por que não nos interessa. Construimos ambientes de péssima qualidade porque simplesmente não utilizamos todo o conhecimento que possuimos sobre a cidade.

Ou seja, preferimos utilizar soluções convencionais a específicas do lugar não por falta de conhecimento, e sim de propósito.

Nos dizeres do Edézio Teixeira: "ocorrem frequentemente situações em que atores privados ou mesmo estatais dispõem de conhecimento e DELIBERADAMENTE não o utilizam."

E hoje recebo um email do professor Edézio que exemplifica ainda mais o que estou falando:

"Caro Álvaro: Os piscinões que você vaticinou para BH chegaram de fato (Ver jornal O Tempo, hoje)! Anote como são as ironias da vida: Eu, que sou febrilmente político, mas apartidário (morro de raiva de partidões e partidinhos), encontrei num prefeito petista, o Patrus, a oportunidade de propor, participar e conduzir grande parte dos estudos geológico-geotécnicos de Belo Horizonte, nos idos de 1993 a 1995, que são ainda dos melhores que há, pode ter certeza. Na ocasião fizemos vários estudos e propostas para a gestão da água, explicitando suas três grandes dimensões de planejamento (suprimento, agente geodinâmico e geotécnico e veículo do poluentes e contaminantes), deixando claro na ocasião que a gestão segmentada, à européia cartesiana, representava a certeza de que nada conseguiríamos de avanço na solução dos problemas associados (aliás, porque é que a água acaba senão também por ser jogada fora?); foi nessa ocasião que desenvolvi o método geológico que você viu bem mais tarde aplicado a Contagem e imortalizou em seu livro, e que foi apicado com pleno e evidente êxito em Belo Horizonte mesmo em 2006 a 2008.

Agora presidente do mesmo partido e prefeito do mesmo partido, possivelmente com a anuência de governador de posições incertas (vide transposição do São Francisco) adotam a solução cartesiano-malufiana dos piscinões para o Arrudas. Precisamos inundar este país, mas não de água e sim de conhecimento sobre a terra, do contrário a coalisão do paradigma hidráulico eurocêntrico, combinada com a obediência cega a leis anti-naturais levar-nos-á a todos para o buraco. Isto não é menos importante que as necessárias militâncias partidárias, você não acha? Estou a ponto de pedir exclusão da SBG, ABGE, SPG e IAEG, por absoluta falta de defesa da boa ciência.

Por se tratar de questão que considero relevante, peço-lhe compreender a necessidade que tenho de dividir este verdadeiro pedido de socorro com meus outros destinatários.

Por que os piscinões podem variar, mas a filosofia é a mesma: Você retém águas durante as chuvas pesadas e depois as descarrega. É claro que não conheço pormenores, mas há uma barragem no Bonsucesso (aquele córrego que corre descendo paralelamente ao Anel Rodoviário em BH no sentido da serra para a Betânia e pelo menos uma área para o córrego Ferrugem em Contagem). Da minha visão geológica é o maior crime ambiental de sempre descarregar as águas da terra sem a menor manifestação dos órgãos ambientais, que parecem crer que esteja tudo bem. Com o Arrudas sobrecarregado vi com alunos de Arquitetura e Urbanismo da PUC, da disciplina da Margarete Leta, em execução mais uma canalização de grande porte. Daqui a 10 anos a solução será alargar de novo o Arrudas.

Grande abraço.

Edézio Teixeira de Carvalho
edeziotc@gmail.com"


Para saber mais sobre os piscinões de contenções de enchentes, acesse
aqui e aqui.

Será que o Ministério Público Estadual e o Ministério Público Federal não podem fazer nada? E nós? O que podemos fazer?

Está na hora de não apoiarmos mais em um gênio e apoiarmos no grupo, no movimento. Extinguir a cena e criar um
mundo arquitetônico.

2 comentários:

a r c h i t e c t u s disse...

há controversias...
o estacionamento do estadio do pacaembu , em São Paulo. Fica sobre um imenso piscinão , construído pelo então prefeito Paulo Maluf, para resolver os problemas de enchentes na Avenida Pacaembu.
E não é que resolveu...

Marco Antonio Borges Netto - Marcão disse...

Architectus,

Bão?

Como diz o post, de repente o piscinão do Maluf foi a solução específica do lugar. A solução adequada para o lugar.

Mas tenho as minhas dúvidas. À medida que impermeabiliza cada vez mais o solo de São Paulo, a medida que mais e mais pessoas despejam água no sistema de drenagem, a possibilidade do piscinão funcionar vai diminuindo.

O Arrudas, por exemplo, depois de canalizado demorou 30 anos para transbordar. Mas se tivéssemos impermeabilizado menos o solo, jogado menos água na rede pluvial e de drenagem, aproveitado mais a água da chuva, não construído avenidas sanitárias, fatalmente o Arrudas não transbordaria nunca.

Enfim, para São Paulo pode estar funcionando, mas para Belo Horizonte os piscinões não é a solução.

A Prefeitura de Belo Horizonte, como é comum na administração pública de modo geral, ao construir os piscinões, ignora os estudos do lugar: mapas geológicos, de predisposição de riscos, geotécnicos, de demografia.... e aplicam as soluções que melhor adequa a administração pública, e não ao lugar.

As enchentes nas cidades ocorrem por causa de uma urbanização que ignora a geologia do lugar (solo, vegetação).

Abraços.