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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cadê os arquitetos urbanistas 2/1/5

Achei o texto abaixo no blog da Renata Malachias. Resume bem em que pé estamos e espero, um dia, mudar.

Arquitetura Inteligente?
José Eduardo Ferolla*

A moda agora é falar em “casa inteligente”, contudo qualquer curioso logo descobre sobre o que, de fato, a este respeito estão falando: casa inteligente, para a mídia nem tanto, é a mesma coisa, apenas adornada de gadgets destinados a algum tipo de automação.

Há, de fato, edificações inteligentes, como outras bem burras, mas não devido a esta – no jargão automobilístico – tecnologia embarcada.

Fosse o bastante, muito carro nem deixaria que entrassem certos motoristas.

O que seria, então, uma casa inteligente?

A questão antecede o projeto.

Começa pelo lugar escolhido. Por que são mais valorizados os terrenos em aclive desde a rua se nestes gastamos mais arrimos e perdemos muito com acessos, privacidade e área útil quando comparados aos terrenos em declive?

Quase sempre lote em aclive não é a escolha mais inteligente.

A nossa topografia é complicada. Aqui, então, nem se fala, mas uma vista vende – e há quem compre – barrancos viáveis só para circulação de bodes só para usufruir de um panorama que amanhã vai virar extração de minério ou ser tampado por um edifício.

Mais inteligente é comprar lote melhor e sair pra curtir a vista. Cada vez, uma vista diferente.
Convém avaliar também a orientação solar, principalmente perante a topografia. Um terreno voltado para a nascente às vezes não recebe, dali, insolação alguma devido ao sombreamento de algum morro próximo. Muitas vezes até mesmo uma edificação próxima, ou contígua, poderá acabar com o sol.

Como implantar a casa no lote?

Na maioria das vezes são desenvolvidas longitudinalmente, deixando dois becos laterais mal iluminados para devassar o vizinho, ou ser por ele devassado.

Inteligente é construir transversalmente, se possível de divisa a divisa: a casa, abrindo apenas para a maior extensão do terreno, que usualmente é a profundidade, usufrui mais das suas áreas livres, e com mais privacidade.

O mundo anda violento e os muros subindo.

Estamos construindo prisões para nós mesmos. Aqui a eletrônica tem, de fato, muito a contribuir, com soluções mais eficientes e de menor transtorno estético do que cercas eletrificadas e “concertinas” (como foram arrumar nome tão bonito para aqueles enrolados de arames farpados de terras-de-ninguém militares?).

Inteligente é a casa cujo muro, participando da estética da arquitetura, já seja a fachada, e não uma barreira entre esta e a rua, sem agredir a vizinhança, favorecendo acesso a moradores, convidados e serviços.

Quanto é preciso construir neste nosso clima permitindo 80% do ano usar a varanda, que é onde todos preferimos ficar? A casa média japonesa tem 40m². Serão eles tão mais pobres? Nossas famílias estão menores e mais voláteis, já as casas, só aumentando. Criamos dois filhos em 200m². Hoje, com uma filha já casada, sobram 30m², mais outros tantos onde ficamos semanas sem entrar. Pra quê escritório se você é do tipo que nunca trabalha em casa? Pra quê biblioteca se você gosta mesmo é de ler no banheiro? Pra quê suntuosa sala de jantar se o povo não sai da copa e da cozinha, agora rebatizadas de espaço gourmet? Pra quê home movie se você acaba mesmo vendo os filmes no aconchego da sua cama?

Não me cabe questionar os que podem, nem aqueles que, por razões até profissionais, precisam de grandes espaços para receber, mesmo assim, ao dimensionar nossas casas, convém lembrar que só ocupamos um espaço de cada vez, e mesmo ali ainda podemos sobrepor usos diversos.

O planeta está esquentando.

Agora é moda usar vidros duplos atérmicos e é um conforto o ar condicionado, contudo geralmente são empregados estes recursos para corrigir erros do projeto: seriam dispensáveis numa construção protegida dos excessos do sol, aproveitando uma brisa conduzida pela sombra ou pela água que, naturalmente, e de graça, amenizaria o clima interno.

Inteligente é uma casa fresca e clara, preferencialmente aberta para leste e sul, poupando energia.

Esta orientação, entretanto, não é regra geral: se a moradia estiver em altitudes superiores a 1.400m, como a nossa, vamos precisar de muito sol, principalmente à tarde, para aquecê-la nas noites de inverno.

Uma casa não é só construção, é o resultado do diálogo desta com as áreas livres.

Lugares para serviço e convivência precisam de extensões descobertas e um bom projeto determina, aí, áreas de lazer separadas de varais.

Importante também o papel da vegetação: um jardim bem planejado continua lá fora a arquitetura, ajuda no sombreamento onde desejável e cria barreiras visuais para favorecer a privacidade.

A água vai ficar escassa, mas grassa uma obsessão escatológica por banheiros.

Na nossa infância, com famílias bem mais numerosas, compartilhávamos, sem problemas, um, no máximo dois, agora enchemos nossas casas de suítes e vangloriamo-nos da economia do aquecimento solar…

Chove demais em BH.

Inteligente é a casa que armazena e aproveita deste aguaceiro para faxina, irrigação e descarga sanitária.

Inteligente é parar de desperdiçar e reciclar, para que dure mais o que ainda resta da Terra.
É usar corretamente o terreno, que um erro, nele, não terá mais conserto.

É rever nosso estilo de vida, despindo-o das efêmeras “tendências” impostas pelo consumo. O último lançamento de Milão será descartado pelo próximo, do ano que vem, e não se troca de casa nem de mobília como se troca de roupa, logo convém dimensionar correta e conscientemente os espaços das nossas necessidades, dos nossos desejos.

É escolher, ao edificar, a solução com o menor impacto ambiental e consumo energético, materiais mais duráveis e de menor manutenção, respeitando o vizinho e os lugares públicos, é por aí afora.

A partir de casas inteligentes para cidadãos inteligentes iremos tornando nossas cidades inteligentes.

* Engenheiro arquiteto, urbanista e professor da Escola de Arquitetura da UFMG.

4 comentários:

renatamalachias disse...

Não é incrível o texto? De uma simplicidade absurda, acho que resume várias coisas importantíssimas. A gente devia colar ao lado da mesa de trabalho,e ainda imprimir pros amigos. :)

Marco Antonio Borges Netto - Marcão disse...

É verdade, Renata.

Devíamos colar na mesa, na geladera, no armário, na testa...rs.

Abraços.

Ricardo Rossin disse...

Nossa, que texto brilhante...E pensar que ontem mesmo estava lendo a famosa entrevista do Eduardo Souto Moura quando ele comenta sobre a sustentabilidade...Vou colocar no meu blog...

Marco Antonio Borges Netto - Marcão disse...

Ricardo,

Brilhante e inspirador.

Abraços.