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domingo, 27 de maio de 2007

Entrevista - Sylvio de Podestá

O arquiteto Sylvio de Podestá acostumou-se com a polêmica desde a época em que tinha sociedade com Éolo Maia e Jô Vasconcellos, que constituíam, nos anos 1980, o que hoje poderia ser denominado “núcleo duro do pós-modernismo caipira”. Em setembro último, Podestá inaugurou mais uma controvérsia, de caráter nacional, ao criticar, em carta publicada no jornal O Cometa, e posteriormente distribuída pelo IAB/MG, a proposta do governador mineiro Aécio Neves de transferir o Centro Administrativo do governo para uma região periférica de Belo Horizonte, chamando o arquiteto Oscar Niemeyer para desenvolver o projeto. Nesta entrevista, concedida em Belo Horizonte, Podestá fala desse tema e de como vê a arquitetura atual.

Gostaria que o senhor falasse sobre sua carta a Niemeyer, sobre a mudança do Centro Administrativo do governo mineiro da praça da Liberdade.
A carta resultou de uma atitude pessoal. Ela foi feita para o jornal O Cometa, de Belo Horizonte, editado por um pessoal de esquerda. Inicialmente ele era publicado em Itabira, MG, e estão começando a editá-lo na capital. Eles me deram o maior apoio, quando lançamos [com Éolo Maia e Jô Vasconcellos] a revista Pampulha. Fazíamos uma troca de amabilidades editoriais, e eles me convidaram para escrever sobre arquitetura no jornal. Não pretendia fazer isso de forma técnica. Já escrevi em alguns jornais de Belo Horizonte e do interior mineiro, explicando para leigos o que é arquitetura. Tudo baseado no que Sílvio Vasconcelos fazia na época em jornais daqui, explicando o que é goteira, o que é solo etc.

Aquelas explicações básicas, técnicas?
Eu preferia escrever sobre coisas que sempre me incomodaram muito, sobre os monopólios culturais no Brasil - João Gilberto na música e Oscar Niemeyer na arquitetura, por exemplo. Queria discutir essa problemática de maneira geral, ampla. Quem é culpado por esse monopólio? Acredito que a arquitetura é uma dessas manifestações culturais que deve passar por intervenções locais. Quer dizer, sabemos sobre o mundo inteiro e transmitimos esse conhecimento através do nosso olhar. Por isso que, há muito tempo, desde a época em que eu fazia a revista Pampulha, sempre bati na tecla de que existia uma arquitetura mineira, ou paulista, ou de qualquer outro lugar do Brasil, e se ela estivesse sendo feita no Ceará, por exemplo, seria o olhar de um paulista ou mineiro no Ceará. Ao menos deveria ser assim, embora às vezes apenas se transponha um arquiteto para um lugar, e ele concebe o projeto desligado do contexto.

Quando, na verdade, deveria haver coerência com o local, não?
Pois é. Um exemplo é o Triângulo Mineiro, que é o centro de distribuição da região central do Brasil. Dali, desce Sidônio Porto para São Paulo, faz arquitetura bem conveniente para o estado. E sobe Severiano Mário Porto, que vai interpretar a arquitetura da Amazônia. Creio que esse é um enfoque interessante. Mas não é dessa forma que o mundo rola na visão arquitetônica. A gente já tinha Burle Marx, fazendo jardins sem nunca ter visto o lugar, ou mesmo fazendo passeios, por exemplo. Era a estrutura dele que elaborava essas coisas, uns passeiozinhos, todo aquele grafismo era muito bonito, mas não me parecia coerente com o discurso que essas pessoas tinham e, alguns, ainda têm.

Voltando à carta, quando o senhor a escreveu?
Há um mês e meio. Na época, o IAB/MG estava defendendo o direito ao concurso de um centro administrativo que o governo mineiro pretendia fazer aqui. Nem é o caso principal da carta.O foco central eram dois concursos de arquitetura, um em Uberlândia e outro em Belo Horizonte, em que os projetos desenvolvidos, prontos para ser começados, foram substituídos politicamente por trabalhos de Niemeyer.

Quem eram os autores desses projetos?
Paulo Vilela, em Uberlândia, e Luís Lanza, que ganhou o concurso do terminal urbano de Belo Horizonte. A substituição é que preocupa. Se o político quer chamar Niemeyer, Jean Nouvel ou quem quer que seja, não tenho nada com isso. É claro que vamos reclamar um pouquinho, porque poderia ser realizado um evento mais dinâmico, inclusive com a participação de arquitetos estrangeiros, como [Norman] Foster e [Renzo] Piano. Por que só no Brasil não pode acontecer?A principal questão, para mim, é a substituição pura e simples de projetos já consagrados por concurso. Minha carta alerta: “Ô caro colega, se você não está vendo isso, preste atenção, pois está acontecendo”. É claro que o Brasil é de uma paixão fantástica, recebi cartas totalmente apaixonadas.

A maioria contra ou a favor?
Como o Cruzeiro, por enquanto estou ganhando. Não tinha essa intenção. Mas também não era minha intenção ser chamado de ser desprezível, “não mexa com esse ser intangível”, coisas desse tipo. Não escrevi a carta para responder a ninguém. É uma carta aberta, de uma pessoa que é mais ou menos pública, para outra pessoa que é superpública e está coberta de nota. Não vou ficar preocupado por ter sido chamado de desprezível, de corajoso, dependendo do ponto de vista. Então, a carta fez muito mais barulho pelo que não é do que pelo que deveria ser. Nós estamos mais acostumados com críticas de cinema, de teatro, até derrubando mitos. Um crítico fala mal de uma peça, ninguém vai. Em arquitetura, quando criticamos um projeto ou uma situação, parece que criticamos a pessoa.

Qual o contexto em que surgiu essa questão do Centro Administrativo?
Quando assumiu, a secretária de Cultura de Belo Horizonte, Celina Albano, me chamou a seu gabinete e me perguntou o que poderíamos fazer. Eu disse que seria interessante a construção de um museu, já que aqui não há prédios especialmente feitos para isso.Temos o museu da Pampulha, que é o cassino adaptado, muito mais obra de arte do que muitas obras que contém. Para ele receber uma exposição, é preciso tapar todos os vidros e, assim, quase não se vê a arquitetura, que é belíssima. Uma das obras mais fantásticas do Niemeyer. Um anexo do teatro, do cassino, atual, seria fantástico. Mas um concurso mesmo, de porte internacional, que pudesse tornar visível para o mundo inteiro o que foi a Pampulha. E o edital poderia ser escrito por Niemeyer, mostrando como ele gostaria que sua obra convivesse com a vizinhança.

Mas em sua carta há uma espécie de convite à aposentadoria de Niemeyer, não?
Niemeyer até pode continuar em atividade, mas também não precisa construir tudo. Há uns cinco anos existia um questionamento: quem vai substituir Niemeyer, é Ruy Ohtake? Esse tipo de coisa não tem nada a ver.Hoje sou mais Paulo Mendes da Rocha do que Niemeyer. Paulo Mendes é o intelectual da arquitetura, ele carrega essa bandeira. É uma figura de humor sarcástico. Fui a uma conferência sobre pré-moldados em São Paulo, na qual ele era um dos palestrantes. Ele mostrou três projetos; nenhum dos três era em pré-moldados.

Em sua carta está dito que o governador Aécio Neves articulou essa proposta talvez porque passeie mais pelo Rio do que fica em Minas. É uma crítica política?
A gente até criticava o governador sobre o fato de ele ir para o Rio de Janeiro. Mas então surgiu no jornal a informação, lançada por uma pessoa ligada a ele, de que o Centro Administrativo seria transferido da praça da Liberdade para um antigo aeroporto, um lugar que está sendo pleiteado.

Onde fica esse aeroporto?
Fica na zona nordeste de Belo Horizonte. É um aeroclube antigo. E ali se faria o novo Centro Administrativo, junto com a iniciativa privada. Seria uma espécie de nova cidade. Antes, o Centro Administrativo atual, que ocupa prédios antigos no centro da cidade, seria transferido para locais provisórios. Só que da cidade até esse aeroporto antigo não há nem vias adequadas. Há muito tempo, houve o concurso BH Centro, organizado pelo IAB/MG. Era uma espécie de revitalização do centro. O mundo inteiro estava realizando intervenções em suas zonas centrais, e aqui nós fazíamos cada vez menos. Nunca tivemos uma grande intervenção nessa área.

São Paulo e Rio, pelo menos, estão tentando também.
É, mas São Paulo está tentando faz tempo. O Rio também. A idéia [do IAB] era o centro, muito novo, muito bem construído. E com bastante exemplares da época modernista, inclusive de Niemeyer, de Álvaro Vital e de outros arquitetos daqui. Era um projeto para revitalizar a cidade.

Mas qual seria a idéia?
Uma das coisas que o IAB está discutindo, na minha opinião de modo muito pertinente, é que devagar o campus da UFMG está sendo transferido para a Pampulha. A última transferência grande e pesada foi a da escola de engenharia, que é um complexo imenso, em um quarteirão de não sei quantos prédios. São alguns edifícios antigos, outros novos, alguns foram transformados em centros culturais, bibliotecas, outros estão fechados. Prédios representativos de uma época da cidade, em um local fantástico, de frente para uma das poucas áreas vazias do centro, na antiga rede ferroviária, junto ao casarão chamado Casa do Conde. Lá acontecem grandes eventos atualmente, ligados à praça da estação, que se transformou no Museu de Artes e Ofícios, junto à estação do metrô e à via do Contorno. Ali era o início de uma grande área, do lado de uma antiga fábrica da Antártica.

O Centro Administrativo poderia ser instalado ali e ser um fator de revitalização do centro de Belo Horizonte?
Exato. E não sou só eu que penso assim. A transferência [proposta pelo governo estadual] foi articulada para ser feita por Niemeyer para que ninguém fosse contra, pois assim se calariam todas as vozes. Como foi feito, por exemplo, com o Memorial da América Latina, em São Paulo - sobre o qual, aliás, Edson Mahfuz fez uma crítica muito pertinente, sem ter sido crucificado por causa disso. Quando ele disse que Niemeyer usa oito variações do mesmo tema, e também quando se fala agora que falta detalhamento em suas obras, ninguém diz nada. Quando eu falo que Niemeyer tem que ficar quieto e deixar a gente trabalhar, muita gente critica.

Qual o seu método para projetar?
Eu faço algo que acho que todo arquiteto deveria fazer: o olhar do lugar, do cliente, da conjuntura, da época, do momento em que essas pessoas se encontram, para que a arquitetura seja feita para o momento devido. Na minha maneira de ver a arquitetura, o arquiteto é um tradutor de seu tempo, de seu cliente, de sua postura econômica, de sua região, clima.

O que o senhor citaria como exemplo de sua obra, de sua visão de arquitetura, de sua visão de mundo?
Quando eu recupero um prédio em Congonhas, e reconstruo o que foi demolido, para fazer um prédio da Coca-Cola, estou exatamente contra todos os cânones modernistas, que partem da terra devastada, do nível zero. Considero a cultura arquitetônica do lugar e vejo como ela pode ser reposicionada. Essas premissas também foram adotadas na casa do arcebispo de Mariana (leia PROJETO 116, novembro de 1988).E o outro lado é quando analisamos o que estamos fazendo hoje, como os dois campi estruturados em aço portante, em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, e outro no Vale do Aço, perto de Ipatinga. Os dois são para a Fundação Educacional de Caratinga, uma instituição privada, que começou com o Colégio Presbiteriano, há alguns anos.Esses dois edifícios estão procurando sustentabilidade, meio ambiente. Todas essas coisas que já foram definidas há muito tempo e que não estão sendo literalmente aplicadas na arquitetura - basta ver esses últimos prédios feitos no Brasil, principalmente em São Paulo. São cacos de vidro, e depois vem o que os arquitetos espanhóis estão chamando de força bruta. Inventam um erro e o corrigem com força bruta.

Esses projetos educacionais têm concepção sustentável, então?
Eles têm até tratamento de esgoto, água, tudo o que você pode imaginar de sustentabilidade. Então, a arquitetura pode não ser a mais exuberante do mundo, não estamos usando grandes vãos ou coisas do tipo. Mas estamos considerando no projeto todo o sítio, uma região com sessenta e poucas lagoas. Será em metal e eucalipto, pois ali é uma área com muito eucalipto. Vai ter bambu, telha de aço, telha de barro. Cada edifício terá sua representatividade e sua forma de ser abordado. Fizemos uma proposta filosófica e o cliente topou.

Qual sua opinião sobre a proliferação de escolas de arquitetura no Brasil?
Não concordo que existam escolas demais de arquitetura. Acho até que deveria haver mais faculdades de arquitetura. Ruim por ruim, eu prefiro um punhado de escolas de arquitetura a um punhado de escolas ruins de direito, de medicina. Porque o arquiteto tem formação gerencial.Então, esse eventualmente ruim arquiteto tem muito mais condição de prestar um serviço qualificado como gerente de obras, dono de restaurante, trabalhar com moda, fazer música etc. Porque a arquitetura tem, ou deveria ter, uma formação múltipla. O arquiteto teoricamente malformado é menos nocivo do que um médico ou um advogado malformado.

Por Silvério Rocha Publicada originalmente em PROJETODESIGN Edição 286 Dezembro de 2003.

2 comentários:

eme disse...

He,He, é realmente um homem da polêmica! Descobri a pouco que o Sylvio acaba de lançar o seu site pessoal. Com outros textos "quentes" e detalhes sobre projetos. Quem se interessar: www.podesta.arq.br Abraços! Eme Maranhão

Marco Antonio Borges Netto - Marcão - revistacrise@email.com disse...

Eme, valeu a dica.
Tô acessando agora o site dele.
Abraços,
Marco Antonio.