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quarta-feira, 15 de agosto de 2007

Arquitetura Tática

ARQUITETURA TÁTICA – Uma breve convocatória para uma prática arquitetônica furtiva, horizontal e inclusiva
Gustavo Crembil e Pablo Capitanelli

Propomos explorar a noção de uma arquitetura tática dentro do quadro da descrição de Michel de Certeau dos usos cotidianos que as pessoas comuns fazem das representações, textos e artefatos que nos rodeiam (1).

De Certeau afirma que estes usos são “táticos” através de “apropriações furtivas” e descreve este processo de consumo “...um conjunto de táticas pelas quais o fraco faz uso do forte. Ele caracterizou o usuário (um termo que ele preferiu a consumidor) rebelde como tático e o presumido produtor (no qual ele inclui autores, educadores, curadores e revolucionários) como estratégico. Estabelecer esta dicotomia permitiu a ele produzir um vocabulário de táticas rico e complexo o bastante para equivaler a uma estética reconhecível e distinta. Uma estética existencial. Uma estética da apropriação, do engano, da leitura, da fala, do passeio, da compra, do desejo. Truques engenhosos, a astúcia do caçador, manobras, situações polimórficas, descobertas prazerosas, tão poéticas quanto guerreiras” (2).

Os termos Tática e Estratégia remetem ao vocabulário militar e se referem ao manejo de recursos para o desenvolvimento de uma ação; diferenciam–se em sua definição segundo os momentos e circunstâncias. Se o Estratégico responde a uma lógica de ordem vertical e se refere aos traçados prévios – de acordo com hipóteses e suposições, que permitiriam chegar posicionado à ação - , o Tático responde a uma lógica de ordem horizontal e se refere ao manejo de todos os elementos durante o desenvolvimento da própria ação, o que implica ir variando os traçados de acordo com as circunstâncias que vão se apresentando no momento. A Estratégia se orienta na direção de uma perspectiva de ciência; a Tática, na direção de uma arte.

Em arquitetura este traçado dependeria do posicionamento do interlocutor. A prática tradicional (profissional) trabalha a partir da visão panóptica do profissional moderno, herança do geômetra onisciente renascentista, abstrato e de controle. Uma prática tática implicaria uma leitura e ação ao nível da rua, a partir de onde se sucedem as coisas. Dentro do campo da arquitetura isso implica, necessariamente, uma crítica do papel do arquiteto, e por extensão da arquitetura, já que em sua concepção mesma está absorvida como veículo de Poder e de exercício de uma verdade.

Mais que buscar a solução de um problema através da criação de um objeto desenhado final, desejamos explorar esta noção tática através da geração de dispositivos arquitetônicos, tecnológicos e conceituais que possam ser apropriados, deformados e que, finalmente, desapareçam, dentro da prática comunitária.

Tomando como ponto de partida o atual estado deliberativo da sociedade, pretendemos fazer convergir as noções de “rede”, a tecnológica (em um sentido amplo, não só digital) e as redes cidadãs, com o objetivo de gerar uma situação de “diálogo público”: um intercâmbio de experiências e pontos de vista onde as diferenças sejam percebidas como vínculos potenciais e recursos sociais e tecnológicos alternativos, cuja finalidade é intervir diretamente na vida social com a construções de “cenários” para que aconteçam “coisas”, usando a prática arquitetônica como instrumento de interação e mudança.

Notas

1. De Certeau, Michel. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. Trad. E. Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

2. Garcia, D. e Lovink , G. “The ABC of Tactical Media”.Versão original no Tactical Media Network: http://www.waag.org/tmn/frabc.html Tradução para o português no Rizoma: www.rizoma.net/interna.php?id=131&secao=intervencao.

Tradução de Ricardo Rosas

Fonte: BETA_TEST (http://betatest.ubp.edu.ar/beta.htm) e rizoma.net

Um comentário:

Aluno disse...

esse discurso entre tático e estrategico gera uma infiniddade de discussões que podem ser pautadas, dentre elas cito a necessidade do arquiteto participar no todo do processo do fazer arquitetonico. Tomando por pressepusto que em grande maioria os arquitetos estão cada vez mais se tornando "estrategicos de prancheta". Assim entendo que a participação do processo, em determinado momento, do que foi traçado pode trazer descobertas e desenvolver novas habilidades ao profissional, podendo assim participar de forma muito mais efetiva, completa e com possibilidades de sucesso.