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sábado, 27 de fevereiro de 2010

Construindo mal as cidades - Que fria!

"Cara Ana Luiza,

Acredito que as chuvas aí no Rio estejam tão intensas como em São Paulo. No entanto, os estragos por aqui atingem níveis que nos surpreendem pela freqüência e intensidade. Então, escrevo para trocarmos um pouco as nossas impressões.

Pelos links abaixo, você pode ver alguns exemplos, entre ele um ocorrido em Diadema na segunda passada.

O rio transborda em meio à área urbana, “apagando” o chão da cidade. Desaparecem as ruas, canais, calçadas, praças, etc.

Desaparece a urbanidade.

Outros links mostram como essas situações estão se repetindo todos os dias, matando gente, paralisando os deslocamentos e inviabilizando a vida urbana.

Nos morros e várzeas ocupados por habitação popular, a situação se agrava. As mortes por deslizamentos e enxurradas se acentuaram. E mesmo o turismo junto às florestas nos morros já não é mais seguro – veja Ilha Grande.

Pergunto até onde temos, nós arquitetos, alguma responsabilidade nesses desastres.
O vilão inicial, o volume de chuvas, não basta para explicar: janeiro superou em apenas 0,9 mm os 480,5 mm do recorde de 1947. Não há dúvida que as engenharias devem algumas explicações sobre a ineficiência de seus caríssimos dispositivos de macro-drenagem e de estabilização de encostas. Também não basta culpar os “políticos” e o Estado, incapaz de manter as infra-estruturas existentes e de prevenir as ocupações em áreas de risco.

Acredito que devemos repensar aquilo que está na nossa área: o modo de ocupação do território – urbano, rural e natural. Como as formas urbanas atuais dependem das infra-estruturas de canais e arrimos para domar seus rios e morros, hoje está claro que confiamos mais do que devíamos na eficiência dessas técnicas.

A relação entre as cidades e suas águas torna-se agora fundamental para a sua sobrevivência e não se resolve apenas com as engenharias. Eu começaria pensando que é necessária uma nova interlocução da arquitetura com o pensamento ambiental, sempre fraco no urbano, ou melhor, quase anti-urbano. É possível encontrarmos novas formas urbanas que evitem os desastres recorrentes que temos vivido?

Ou você vê outro caminho para iniciar essa reflexão?

Renato Anelli, arquiteto e professor da USP-São Carlos."
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"Surrupiei" a carta do blog Posto 12, da professora Ana Nobre, para complementar a imagem acima, na capa do Jornal Estado de Minas de hoje. Comento em seguida.

No Manifesto, publicado aqui, o professor e geólogo Edézio Teixeira  aponta, como descontrole do regime hidrológico nas áreas urbanas, os seguintes fatos evidentes:
  1. Bloqueio à infiltração pelos telhados, pisos impermeáveis sem cobertura e vias asfaltadas;
  2. Concentração do escoamento, que retira tempo ao processo de infiltração;
  3. Substituição das superfícies naturais, rugosas e molháveis, como as das florestas, por superfícies antrópicas lisas e não molháveis (de baixa superfície específica, como os telhados, fachadas e vias asfaltadas).
Para resolver as inundações e enchentes, Edézio afirma que deve ser promovida uma ruptura com o processo de realimentação positiva (sistemas que preveem o escoamento utópico de toda a vazão gerada) substituindo o princípio da vazão prevista (esperada, provável, com recorrência probabilística de 50, 100, 1000 anos) pelo princípio da vazão admissível. Que é concientizar as pessoas e o Poder Público de promoverem formas de conter a água, como a utilização de captação de água de chuva, manutenção de áreas permeáveis...

E esses desastres ocorrem porque construimos nas cidades como se iguais fossem os terrenos, "dado a inexistir qualquer adaptação das tecnologias às peculiaridades locais." Ou seja, ignoramos, ao construir, todos os aspectos do terreno, do entorno, da localidade. Ignoramos que o ambiente foi alterado, ignoramos os aspectos geológicos, sociais. Construimos como no CAD, onde qualquer interferência não acarreta nada.

E reitero: por que fazemos a Linha Verde? Por que tantos viadutos e asfalto? Por que não priorizamos o transporte público? A capacidade já instalada nas cidades?

Veja mais sobre isso aqui e aqui ou na ferramente de busca do blog.

Em outro post darei continuidade ao assunto debatido e discutido com meus alunos na UNIPAC.

2 comentários:

Marco Antonio Borges Netto - Marcão disse...

Muito boas as considerações!
A imagem é do "nosso" - leia-se: feito com nosso dnheiro - na Cristiano Machado, sobre a Silviano Brandão, não é?
E os links a que o Renato Agnelli se refere?
Beijo
Leta.

Marco Antonio Borges Netto - Marcão disse...

Leta,

Publiquei seu email pois achei pertinente suas duas perguntas.

Conforme te respondi por email, sim, a imagem é do mega viaduto da Cristiano Machado e faz parte da Linha Verde.

E os links que o professor cita, são:

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1202650-7823-CHUVA+PROVOCA+ALAGAMENTO+EM+SAO+PAULO,00.html

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1470832-5605,00-SEMANA+DE+ENCHENTES+DEIXA+BAIRROS+DEBAIXO+DAGUA+EM+SAO+PAULO.html

http://bandnewstv.band.com.br/conteudo.asp?ID=257035&CNL=20

http://bandnewstv.band.com.br/conteudo.asp?ID=256973&CNL=20