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segunda-feira, 30 de julho de 2007

A POLÍTICA DA ARQUITETURA ISRAELENSE - Nick Rockel

Se seres humanos são criaturas políticas, os prédios em que eles habitam não têm uma política?

Levantar esta questão custou a dois jovens arquitetos israelenses seu cobiçado espaço no Congresso Mundial de Arquitetura de 2002. Eyal Weizman e Rafi Segal ganharam a comissão da Associação Israelita de Arquitetos Unidos (IAUA - Israeli Association of United Architects) para representar seu país no congresso, realizado em Berlim em julho corrente.

Então os funcionários da IAUA viram o catálogo para a exposição planejada, "Uma Ocupação Civil: A Política da Arquitetura Israelense".

Antes que Weizman e Segal soubessem, a exposição foi cancelada e eles viraram celebridades internacionais.

Porque a IAUA ficou tão enfurecida? "Uma Ocupação Civil" é uma crítica mordaz do papel da comunidade arquitetônica israelense na rápida colonização dos territórios ocupados, particularmente a margem oeste*. Com ensaios fortemente argumentados, mapas detalhados e dramáticas fotos aéreas, o catálogo mostra como mais de 800 assentamentos israelenses - desenhados por arquitetos, estrategicamente empoleirados em topos de colinas e vedados para palestinos - são chaves para o controle governamental dos territórios.

O presidente da IAUA Uri Zerubavel tem raivosamente rejeitado o projeto, chamando-o de "Pró-político, anti-judeu e anti-sionista". O IAUA é uma organização profissional, não um partido político, ele diz; exibir "Uma Ocupação Civil" internacionalmente daria uma má reputação aos arquitetos israelenses. Weizman acha que Zerubavel está se equivocando. Para ele, a Margem Oeste é um estudo de caso, "um grande laboratório onde processos urbanos onipresentes são acelerados e tornados extremos". Ao expor a cumplicidade dos arquitetos israelenses numa ocupação "imoral, ilegal", Weizman espera chamar atenção para uma falta de consciência comum na arquitetura e planejamento contemporâneos.

Ironicamente, é provável que mais pessoas acabem vendo "Uma Ocupação Civil"do que as que teriam visto em Berlim. Weizman diz que recebeu diversos convites da Europa para receber a exposição, e a Babel Press está reeditando o ofensivo catálogo. Abra o olho, Rem Koolhaas.

* Os territórios da Cisjordânia, margem oeste do Rio Jordão (Nota do Tradutor).

Tradução de Ricardo Rosas

Fonte: Adbusters (www.adbusters.org) e rizoma.net

Entrevista Joaquim Guedes

Intransigente e corajoso na defesa de uma arquitetura que represente a cultura brasileira, e do ensino da profissão voltado para a nossa realidade, Joaquim Guedes acaba de se aposentar da FAU/USP, onde durante décadas formou gerações de profissionais. Respeitado no mundo acadêmico pela coragem com que revela suas polêmicas opiniões em assembléias - quase sempre discordando da maioria -, Guedes destaca-se no cenário da arquitetura nacional também por projetos residenciais famosos e importantes trabalhos de planejamento urbano. No início de sua carreira, chegou a trabalhar com o padre Lebret e participou do concurso para escolha do projeto do Plano Piloto de Brasília.

Por que o senhor resolveu organizar um seminário internacional sobre o ensino (em meados de setembro de 2001, na FAU/USP) pouco antes de se aposentar?
Esse seminário, na verdade, foi um esforço desesperado de um professor que sempre se preocupou em discutir o que é arquitetura e como ensiná-la. Ao organizar o encontro, conversando com colegas, resolvemos reunir os melhores arquitetos e professores do momento, de vários países, para que dissessem, com a maior liberdade, o que é arquitetura e como ensinar, uma vez que, no mundo inteiro, essas são as preocupações dos verdadeiros mestres. Os frutos do evento vão depender da disponibilidade, do interesse e da forma como os participantes metabolizaram aquilo que viram e discutiram durante os três dias do encontro. Antes de mais nada, foi uma parada para pensar como está o ensino da arquitetura. Como era esperado, cada um dos 16 professores convidados entendeu à sua maneira a proposta e fez um discurso diferente. As conferências serão publicadas pela FAU/USP, associadas às colocações dos participantes, que apresentaram 35 projetos, propostas e comentários

Depois de 42 anos dedicados ao ensino, como o senhor vê o ensino, hoje, no Brasil e comparado ao cenário internacional?
Ao que parece, há uma grande insatisfação mundial, porque se sente muita dificuldade de diálogo entre os vários departamentos das escolas. No caso brasileiro, a competição entre professores é muito grande em algumas escolas, e ninguém admite crítica, que é fundamental para o processo criativo. Outro problema de nossas escolas é o pouco tempo destinado ao estudo de projeto. O professor Gustavo Neves da Rocha, do Departamento de História da FAU/USP, fez um trabalho muito interessante, em que constatou que apenas 8,3% do tempo do aluno é consagrado ao projeto. Isso é trágico porque, apesar de todos as cadeiras tratarem de arquitetura, ensinar projeto é bem mais do que falar de arquitetura. É mais do que uma análise comparada da arquitetura de todos os tempos. História e tecnologia são importantes, mas o tempo que se dedica a isso numa escola de arquitetura e a qualidade do ensino desses cursos têm que ser repensados. São cadeiras importantes, mas tomam muito tempo do ensino do projeto. O ensino de história é notável; o de tecnologia nem sempre, porque não se ensina tecnologia e construção de verdade nas escolas de arquitetura. Trata-se apenas de um verniz de tecnologia; a verdadeira tecnologia fica para as escolas de engenharia e os institutos. Se, por um lado, é difícil a crítica do trabalho de um colega, por outro, também não é comum ouvir elogios ao projeto dos outros... É. E sabe por quê? É que ninguém é perfeito. Se você vai elogiar uma coisa, tem que, em contraposição, criticar outra. Por exemplo, eu gosto demais do trabalho do [Marcos] Acayaba. Mas acho que ele se perde em formalismos estruturais que, na minha opinião, são um desvio, por mais brilhante que resulte a forma. Acho difícil só elogiar o trabalho de um arquiteto, o correto é analisar criticamente o que ele faz, destacando os pontos que se consideram positivos e mostrando aqueles com os quais não se concorda. Considero Acayaba um arquiteto de grande capacidade e ele provavelmente não está interessado em saber minha opinião. Falar bem é também falar criticamente, é preciso ir sempre a fundo nas coisas.

Mas a crítica deveria ser feita apenas por arquitetos ou o senhor acha que isso ficaria a cargo da imprensa especializada?
Essa outra crítica é geralmente mais complicada, porque esses especialistas fazem crítica da cultura, mas não entendem nada de construção. Vão falar o que da arquitetura? Façam os ensaios que quiserem, mas bem longe da arquitetura. Falem da arquitetura como epifenômeno, não da arquitetura em si. O que faz falta nas escolas não é a crítica cultural, mas a crítica do fazer. E isso é uma coisa que só os que praticam arquitetura têm condições de fazer. É difícil mesmo para arquitetos-críticos que nunca fizeram arquitetura.

Qual sua opinião sobre a atual produção arquitetônica do país?
De maneira geral, a arquitetura vai mal, basta olhar para as avenidas das grandes cidades do país, que apresentam a arquitetura de Dallas, Houston etc. Toda a forma urbana sai hoje das revistas internacionais, e se sai das revistas os nossos problemas não estão sendo considerados. Se fossem, não poderiam ter essa face... Como todo arquiteto que já viveu um bom tempo, tenho a tendência a achar que ninguém entende o que é arquitetura. O Oscar [Niemeyer] também fala que “ninguém entende o que é arquitetura, ninguém sabe o que é isso”. Você olha de lado e vê tanto modismo, tanto mimetismo, tanto cenário, tanto enfeite, tanto jogo de espelho. Eu me pergunto: o que vem a ser isso? Não tem nada a ver com arquitetura. Tudo poderia ser simples, eficiente e adequado à sociedade. O perigoso é que os jovens profissionais se deixam sensibilizar por um aspecto qualquer de uma obra e passam a considerar isso relevante. Veja o caso do projeto de uma capela no norte de Portugal, do Álvaro Siza. Ele desenhou aberturas estreitas e altas, que produzem grande efeito luminoso, um pouco para que as cruzes e os estandartes das procissões pudessem passar. Na minha opinião, esse é o tipo de coisa frugal, de arquitetura do não-essencial. Formas do não-essencial. Sempre tive horror a isso. Aqui, pega-se um sistema de banheiros e se faz fachada com banheirinhos. Banheiro é infra-estrutura básica e não elemento de decoração de fachada. O arquiteto precisa procurar a essência das coisas. Fazer forma, luz e estrutura para a concepção do sistema de espaços que está projetando. O cliente acredita que essa arquitetura dá prestígio... Fico perplexo com a sociedade paulista, tão dinâmica, a mais rica do país, na hora de fazer a sua cidade, seus edifícios, suas casas, apela e aceita isso que estamos vendo aí como arquitetura. São coisas totalmente inconsistentes em face do nosso clima, inacreditavelmente ruins. Claro que há exceções notáveis, mas vemos muitos edifícios construídos com altura errada, janelas que não deixam ver a paisagem e atrapalham os outros, o sol batendo onde não deve, todas as fachadas com vidros iguais nos quatro diferentes quadrantes. É tudo mal pensado, mal resolvido. E não é difícil exercer bem a profissão, basta atenção, seriedade, intransigência na procura do resultado, coragem. A arquitetura atual segue a moeda, é uma arquitetura monetarista, interessada em certo tipo de status. O arquiteto é instado a fazer uma arquitetura para esse status. As casas que estão surgindo nos Jardins [em São Paulo] são uma vergonha. Reformam casas honestas e as transformam em uma cruza bastarda de vila italiana com pagode ninguém sabe de onde. Um lixo. E a burguesia paulistana não percebe o ridículo em que está incorrendo e a forma ridícula como gasta seu dinheiro. O mais grave disso tudo é que a arquitetura invade o nosso cotidiano. Quem passeia pela cidade é obrigado a ver tudo isso. A profusão de arquiteturas de São Paulo acaba fazendo um conjunto maravilhoso feito de coisas feias. A Paulista, de longe, é uma maravilha, mas se for olhar o detalhe não dá para ver.

É uma cidade para ser vista de longe?
Sim, de longe se salva. Quando se entra nesses condomínios, tanto da capital quanto das cidades próximas, a coisa é ofensiva de tão feia. Acho que o ensino da arquitetura desenvolveu uma nova mentalidade de arquitetos que não estão fazendo rabiscos. Quando começo a projetar, sinto que a partir de certo momento, não sou mais eu que comando o desenho, mas as análises vão exigindo que faça o desenho daquele jeito. Como se o trabalho se produzisse a si próprio. O raciocínio é conduzido pelo projeto, e é ele que vai encontrando os meandros por onde vai descobrindo o espaço, as formas de construção. O problema é fazer com que os arquitetos vejam isso. Entendo que ser arquiteto é como ser médico, implica obsessão de resolver problemas.

E as arquiteturas eleitas pela sociedade: os anseios são errados ou os arquitetos é que são ruins?
Sinto que tanto a sociedade quanto os governos não valorizam o trabalho do arquiteto. A sociedade deveria tratar nosso trabalho com mais consideração, dar o tempo necessário para o projeto, confiar no arquiteto e dialogar com ele, exigindo tudo o que é adequado ao pedido. A Lina dizia que a sociedade deveria ser muito mais exigente com os arquitetos. É preciso que se tenha grande contato com o cliente para que ele possa dialogar com o profissional sobre as realidades que quer ver atendidas, sobre os problemas que precisa resolver com os recursos disponíveis, com a sua cultura. É assim que se faz arquitetura contemporânea, que é aquela que consegue resolver os problemas do tempo, os problemas reais.

E quem trabalha dessa forma no Brasil?
Muitos talvez não o façam por conta dessa questão do desenho rápido, dos escritórios que crescem e precisam ser sustentados. Então, se trabalha para manter o escritório e não para fazer arquitetura... Tem até arquitetos que se orgulham de manter grandes escritórios e não percebem que isso é uma cilada, é a razão pela qual não estão conseguindo fazer boa arquitetura. Os maiores escritórios do mundo são, na verdade, bem pequenos. Sem querer fazer apologia do pequeno, mas é preciso ficar atento, pois o tamanho grande do escritório não é um sinal de eficiência. Inventam-se maneiras de fazer projetos rapidamente, como por exemplo, as teorias tipológicas de arquitetura. Para fazer isso, as tipologias são essas, então arma-se tudo no computador. Acho tudo isso triste, a arquitetura é uma coisa lenta, pensar é uma coisa também lenta. Cada projeto é um grande problema em si mesmo. Seja uma casinha ou uma cidade. Alguns criticam quando eu falo da complexidade do problema da arquitetura, dizendo que é tudo muito simples. Talvez eles tenham razão, mas eu acho que ou o arquiteto entende a sociedade e seus problemas e procura resolvê-los como arte de construir, ou está fora.

Como o cliente pode ser esclarecido na confecção de um projeto?
Na minha opinião, o correto é o embate cotidiano na construção do espaço. Em cada momento, ao se fazer qualquer coisa, se perguntar onde, por que aqui, de que maneira, como vão ser distribuídos os recursos, quais os objetivos, o que se vai tentar obter etc. É essa discussão que vai esclarecer o usuário.

Na sua opinião, como deve ser o ensino de arquitetura?
Arquitetura se ensina vendo o aluno pensar como vai fazer seu objeto, que tipo de construção vai usar, o que o desenho tem da sua cultura e do seu conhecimento sobre a sociedade. E se queremos uma arquitetura para a sociedade, a última coisa que temos de fazer é discurso político em sala de aula. Muitas vezes, como os professores não sabem ensinar, fazem da sala de aula um palanque para discursos políticos fáceis e demagógicos. O [Vilanova) Artigas jamais fez discurso político na sala de aula. Um aluno do Artigas poderia nem saber que ele era comunista e exercia a política partidária com tanta intensidade. Quando entrava na sala de aula, ele só falava de arquitetura, que, claro, era impregnada da sua paixão pelo cidadão. Ele comovia pelo exemplo e pela excepcionalidade do seu comportamento de arquiteto, e não fazendo discursos. Precisamos formar profissionais que sirvam à sociedade e é ela que vai dizer que organização deseja, que arquiteturas quer. A escola é lugar de reflexão sobre arquitetura.

Agora que o senhor está afastado do ensino e retoma o trabalho de arquiteto, qual o perfil da sua carreira daqui em diante?
Eu nunca selecionei projeto, sempre fiz muita reforma. A reforma é uma coisa mágica, e é uma atitude muito modesta em relação à arquitetura, porque você aceita o que está feito como um dado. No fundo, você não destrói porque acha que aquele casco é um suporte inicial, que representa muita economia em fundações e paredes e, ao mesmo tempo, tem uma história que sugere coisas interessantes, então é muito rico como situação projetual. E não deixa de ser uma atitude muito discreta, muito submissa. Também não tenho nada contra projeto de casas. Estou convencido de que uma parte importantíssima da arquitetura desse século se revelou nas residências. Mies [van der Rohe], Saarinen, [Alvar] Aalto, Rino Levi, Artigas foram autores de casas memoráveis. Então, continuarei a não selecionar projetos. Farei o que for mais agradável e mais importante socialmente falando, em cada momento. E tomando cuidado para nunca pensar que uma residência privada é socialmente menos importante, porque é nela, muitas vezes, que os grandes problemas da arquitetura são resolvidos. Numa edição antiga da revista Time sobre Marcel Breuer, ele dizia que todo arquiteto precisa ter permanentemente uma residência na sua prancheta, porque é um programa que permite o domínio completo dela mesma e contém todos o problemas da arquitetura. Acho que Rino Levi também dizia isso e sempre tinha uma residência em sua mesa.

O senhor usa o computador na arquitetura?
Como todo ou quase todo arquiteto da minha idade, não uso computador, mas o escritório usa, claro. Para nós, é mais difícil trabalhar com o computador do que desenhar à mão. Para expor as primeiras idéias, a mão ainda é o instrumento insubstituível. Mas hoje se vê muito pessoas que fazem projetos, e até teses de mestrado e doutorado que não passam de exercícios de computação, ou seja, procura de variedades ao sabor de um computador. Essa atitude é muito fria, mecânica, é antiarquitetura. Arquiteto não faz jogo de formas, de fachadas, isso são coisas que emergem da compreensão da vida. Arquitetura não pode ser uma curva e janelinhas quadradas metidas de qualquer jeito atrás, como se vê nesses prédios cheios de curvas, comuns em São Paulo.

Texto resumido a partir de reportagem realizada pela equipe de PROJETODESIGN
Publicada originalmente na edição 250 - Dezembro 2000 - www.arcoweb.com.br

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Dia sem carro é bobagem?

Uma série de entidades está promovendo para o dia 22 de setembro, em São Paulo, uma manifestação para comemorar o Dia sem Carro. Até agora, esse dia tem sido, no Brasil, um fracasso, apontado como uma bobagem de seres alternativos.

Neste momento, estou no Estados Unidos e vendo o que está acontecendo aqui, posso dizer que, mais cedo ou mais tarde, esse dia vai ser reverenciado como uma marca de cidades mais civilizadas.

Falo isso porque tomei contato com medidas lançadas pelo prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, as quais o fariam ser linchado se estivesse no comando de qualquer cidade brasileira. Ele determinou, na marra, que os taxis sejam menos poluentes, quadruplicou a área das ciclovias e, para complementar, prometeu cobrar R$ 16 para cada carro que circular em Manhattan.

Não só o prefeito está popular, como, por aqui, fala-se que ele deverá lançar sua candidatura para a Casa Branca, montado na idéia da preservação ambiental. Já sabemos que, mais cedo ou mais, as maiores cidades brasileiras vão entrar em colapso por causa do trânsito. E só uma questão de tempo.

O que Nova York está demonstrando é que quando o eleitor percebe que medidas impopulares podem ser desagradáveis mas fazem sentido para o bem coletividade, o administrador apanha no início e, depois, acaba respeitado.

Para a eleição que se aproxima, os candidatos a prefeito das regiões metropolitanas poderiam ver as luzes de Nova York, assim como as de Londres, Paris e Estocolmo, onde seus prefeitos não tiveram medo de brigar com os automóveis em nome da civilidade.

por Gilberto Dimenstein
Folha Online

sábado, 7 de julho de 2007

Raffaello Berti: O primeiro arquiteto de Belo Horizonte

O arquiteto italiano Raffaello Berti teve fundamental importância na arquitetura da cidade. Apesar de não poder assinar seus projetos, em decorrência da legislação que negava a autoria a profissionais estrangeiros, atribui-se a ele obras arquitetônicas como a Prefeitura Municipal, a sede do Minas Tênis e a Santa Casa de Misericórdia. Berti é considerado um dos ícones da arquitetura nacional e em especial de Belo Horizonte, conhecida por ser a primeira cidade planejada do Brasil.

Para comemorar o centenário de Raffaelo Berti, a capital mineira realizou em 15 de abril de 2000 o lançamento do livro: RAFFAELLO BERTI: PROJETO MEMÓRIA, que reúne parte do acervo dos trabalhos do arquiteto e conta um pouco de sua história. Raffaello Berti é autor de mais de quinhentos projetos arquitetônicos no Brasil, principalmente em Minas Gerais. A iniciativa de resgatar para a posteridade a memória de Berti partiu de seu filho arquiteto Mario, que estruturou o trabalho de documentação da obra completa do pai, mas não o concluiu; faleceu antes. Os trabalhos tiveram seqüência com sua esposa, a jurista, Silma Mendes Berti, professora de Direito Civil. Contou a Professora Silma com a assessoria da arquiteta Maria Alice de Barros Marques Fonseca e com a participação dos arquitetos Silvio Podestá, da AP Cultural e Jomar Bragança de Matos da DPI - ex-alunos dos professores Raffaello e Mario Berti - e da equipe da AJS.

Dentre os mais de 525 projetos e 3000 plantas, a equipe da AJS selecionou os documentos que foram digitalizados, utilizando equipamentos de várias marcas e modelos, elaborou um trabalho que possibilitou a boa qualidade da edição do livro, com a entrega dos documentos de projeto em arquivos a resolução de 200 pontos por polegada em extensão TIF , além das aquarelas e fotos coloridas da coleção de Berti a resolução de 300 pontos por polegada.

Todos os projetos e plantas foram digitalizados em "tons de cinza" para permitir ao leitor a visualização de cada detalhe de dobras, manchas, carimbos de órgãos na época de cada projeto, tonalidades e a identidade visual de cada desenho.

Alguns dos principais projetos do arquiteto Raffaello Berti em Belo Horizonte são a Prefeitura de Belo Horizonte, Sede Social do Minas Tênis Clube e Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte - 1941.

Trajetória

Natural da pequena Collesalvetti, na província italiana de Pisa, Raffaello Berti tinha 21 anos quando chegou ao Brasil. Formado na Real Academia de Belle Arti, em Carrara, o arquiteto desembarcou em 1922 no Rio de Janeiro, onde atuou num dos maiores escritórios de arquitetura da cidade. Lá, participou de trabalhos importantes, como a construção do Jóquei Clube e da Câmara dos Deputados.

Depois de casar-se com a carioca Aracy Marques da Silva Nunes, com quem teve quatro filhos, Berti mudou-se para Belo Horizonte a convite do amigo e sócio Luiz Signorelli. Ao lado de outros influentes profissionais, Berti fundou, em 1930, a Escola de Arquitetura da UFMG, onde lecionou durante 37 anos. Além de receber títulos e condecorações por todo o mundo, o arquiteto consagrou-se como autor de obras que, até hoje, marcam o cenário de inúmeras cidades brasileiras, como a igreja matriz e a casa paroquial de Itaúna; e a sede social do Minas Tênis Clube e o Cine.

fonte: www.personavip.com.br

terça-feira, 3 de julho de 2007

Arquitetura Ecológica ou Sustentável

Era uma vez um grupo de pessoas que entravam em pequenos botes e, em alto-mar, enfrentavam de peito aberto gigantescos navios pesqueiros. Não faz muito tempo que o mundo costumava se surpreender com essas imagens, que jornais do mundo todo transmitem espantados. Hoje em dia, o Greenpeace deixou de ser um nome que desperta curiosidade para transformar-se em uma ONG conhecida. E, com a ajuda de sua atuação e de diversas outras entidades semelhantes, a preocupação com a preservação do meio ambiente passou a ser cotidiana, integrando pauta tanto de grandes encontros de dirigentes internacionais quanto de breves conversas em bares de esquina.

Assim, não era difícil imaginar que, cedo ou tarde, a ecologia acabaria tornando-se uma discussão dentro da arquitetura. Isso tem acontecido através do surgimento de um segmento de mercado chamado arquitetura ecológica ou sustentável, que conta com profissionais especializados e consultores que trabalham para incentivar e auxiliar esse tipo de construção. ''A arquitetura ecológica revela um tipo de arquitetura - e até de construção - que considera as potencialidades sócio-ambientais'', define o arquiteto Roberto Sabatella Adam. Mais amplo, porém, é o conceito de construção ou arquitetura sustentável, que engloba, além da arquitetura, as Áreas como engenharia e reciclagem de resíduos.

"A arquitetura sustentável baseia-se na correta aplicação de elementos arquitetônicos e tecnologias construtivas para minimizar os efeitos do clima na edificação, diminuindo assim sua carga térmica e, com conseqüente diminuição do consumo de energia, otimizando o conforto de seus ocupantes", explica Alexandra Lichtenberg, arquiteta da Ecohouse, um projeto-modelo no segmento de empreendimentos ecologicamente corretos.

Na prática, segundo Sabatella, esse é uma arquitetura que busca o melhor aproveitamento das energias solar e eólica, reciclagem das águas tanto das chuvas quanto das águas ditas cinzentas, um planejamento correto de aberturas permitindo uma ventilação natural saudável, aproveitamento do paisagismo para direcionar fluxos de ventos''.

INTERAGINDO

"Logo no inicio, um projeto deve fazer o levantamento do que, em todas as suas fases, possa gerar impacto no ambiente", diz Marcio Augusto Araújo, diretor do Idhea - Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica. Além disso, um estudo da região deverá indicar alguns caminhos que serão seguidos pela obra, uma vez que o uso de matérias-primas locais e a interação com a natureza são pontos importantes a ser analizados.

Isso aconteceu, por exemplo, no projeto do conjunto residencial Alphasítio, erguido na região de Alphaville, próxima à capital paulista. As preocupações com o meio ambiente vieram da observação das próprias características da área. "A região é cercada de matas naturais", conta o arquiteto Wilson Edson Jorge. "Então, a intenção foi garantir a preservação dessas matas.'' Cerca de 40% da mata natural foi reservada nesse conjunto.

A escolha dos materiais é também de grande importância. Para Alexandra, "devem-se privilegiar materiais como madeira de reflorestamento, argamassa de assentamento produto a partir de entulho de obra, mármore industrializado". "Eles devem ser de origem reciclada ou ser recicláveis, como blocos e telhas", observa Marcio Augusto. "Além disso, é preciso fazer um controle dos poluentes da obra (como tintas, tíner e colas de carpete) e não usar nunca alumínio nem PVC". Já existem no mercado tintas ecológicas, menos agressivas à natureza, enquanto os outros produtos devem ser substituídos por materiais semelhantes. Na arquitetura de interiores, o principal foco passa a ser a madeira com o selo verde, que garante tratar-se de produto de reflorestamento.

ÁGUA E LUZ

Modos alternativos de gestão de água e luz são pontos centrais da arquitetura sustentável. "O uso de recursos durante todo o ciclo de vida de uma edificação deve se situar dentro do limite da capacidade de sustentação ambiental do planeta", explica Alexandra.

Assim, a economia de energia elétrica é imprescindível nesses projetos. Isso pode ser feito demonstra a arquiteta, através de vidros especiais que limitam a quantidade de calor absorvida, diminuindo a necessidade de utilização de ar-condicionado -e até dispensando o uso dele - e de tijolos de vidro para otimizar a iluminação natural. Esses recursos podem ser somados ao emprego de fontes de energia renovável, como a solar e a eólica.

Quando o assunto é água, existem também diferentes alternativas para adotar um uso correto. O projeto de Wilson, por exemplo, estipulou a construção de uma estação de tratamento de esgoto, evitando que os resíduos sejam despejados diretamente na natureza. Existem, além disso, acessórios de hidráulica que agem como controladores de vazão para racionalizar o uso da água.

CUSTO BENEFÍCIO

O custo de uma construção ecologicamente correta, afirmam os especialistas, não difere tanto de um empreendimento usual. O consultor do Idhea conta que "os produtos existem, mas não são fáceis de encontrar". Os fabricantes são poucos e dispersos, e, se por um lado os materiais ecológicos têm, muitas vezes, um preço mais baixo, o custo do frete pode encarecer um pouco a obra. Contudo, as vantagens da arquitetura sustentável vão além da questão financeira. É uma peça de marketing, que estará agregando valor a obra" destaca Marcio Augusto. "Uma empresa que aposta nessa arquitetura, certamente, irá se diferenciar a médio prazo", complementa Alexandra. Roberto vai além: "Uma empresa deve apostar na sociedade, assumir responsabilidades sociais maiores, e a arquitetura deve refletir este modo de viver".

fonte: www.flexeventos.com.b

Construção Sustentável

A idéia de desenvolvimento sustentável começou a se difundir à medida que crescia a consciência sobre o esgotamento dos recursos naturais.As muitas frentes de discussão sobre o assunto enveredam por aspectos econômicos, sociais e ambientais, tais como a busca por formas alternativas de energia em substituição ao petróleo, manejo de florestas para evitar sua extinção ou o exercício de uma arquitetura sustentável.

Uma conceituação atual e abrangente de arquitetura sustentável é dada pela arquiteta Roberta Kronka Mülfarth, do Labaut-Laboratório do Departamento de Tecnologia da FAU-USP e professora da disciplina conforto ambiental na Faculdade de Arquitetura da Uniban:“É uma forma de promover a busca pela igualdade social, valorização dos aspectos culturais, maior eficiência econômica e menor impacto ambiental nas soluções adotadas nas fases de projeto, construção, utilização, reutilização e reciclagem da edificação, visando a distribuição eqüitativa da matéria-prima e garantindo a competitividade do homem e das cidades”, diz Roberta, que defendeu tese de doutorado sobre arquitetura sustentável.

Segundo o arquiteto e professor Ualfrido Del Carlo, pesquisador do Nutau-Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da USP e ex-diretor (hoje aposentado) da FAU-USP, os conceitos de sustentabilidade podem ser aplicados tanto em edificações novas como em retrofits.

“É apenas uma questão de consciência, pois é perfeitamente possível substituir sistemas construtivos e materiais de acabamento não recicláveis ou causadores de grande impacto ambiental por outros, que não comprometam o meio ambiente nem a saúde do ser humano que trabalhará na obra ou usará a edificação”, afirma.

De acordo com o professor, a lista de materiais substituíveis é bastante extensa e inclui produtos como cimento, concreto, derivados de petróleo, tintas e vernizes insolúveis em água ou com grande concentração de metal, para citar apenas alguns exemplos. Dependendo do porte da obra, ele sugere o uso de adobe e madeira de reflorestamento ou de áreas manejadas.

“Aço e vidro, embora tenham muita energia incorporada [energia usada na fabricação do material], têm seu uso justificado pela possibilidade de reciclagem”, complementa a arquiteta Joana Gonçalves, professora do Departamento de Tecnologia da Arquitetura da FAU-USP. Sua colega, a arquiteta Daniela Corcuera, que prepara o livro Edifícios de escritórios - O conceito de sustentabilidade nos sistemas de vedação externa, concorda. “A produção de alumínio, por exemplo, requer 126 vezes mais energia que a de madeira. Porém, quando se trata de um produto 100% de alumínio, a reciclagem é possível, o que diminui o impacto causado.

O problema maior é quando ela não acontece, como no caso dos painéis compostos de alumínio (ACM), que agregam chapas do material a outros elementos. A separação consome tanta energia e tem custo tão elevado que a reciclagem se torna financeiramente inviável”, detalha. Para Daniela, uma das atribuições do arquiteto é cobrar dos fornecedores informações sobre cada material, para saber quanta energia ele requer para sua produção, se é reciclável, quanto gasta de energia para reciclar e qual é o comportamento em termos de conforto ambiental. “A UIA - União Internacional de Arquitetos e o AIA - American Institute of Architects (EUA) adotaram no início da década de 1990 a Declaração de Interdependência para um Futuro Sustentável, documento que coloca a sustentabilidade social e ambiental como ponto central da responsabilidade profissional dos arquitetos”, ela afirma.

De acordo com Joana e Roberta, boa parte dos conceitos da arquitetura sustentável está presente nas aulas básicas de conforto ambiental, que ensinam a considerar aspectos como insolação, ventos dominantes, características do entorno e uso dado à edificação antes de definir posicionamento no lote, espessura das paredes, dimensão das aberturas ou materiais que serão empregados. “O objetivo é explorar as formas passivas de energia até a exaustão antes de partir para as soluções de energia ativa”, completa Daniela. Um dos pontos destacados por Joana é a necessidade de dar mais atenção ao desenvolvimento das fachadas. “É comum prédios com grandes superfícies de vidro onde as luzes permanecem acesas durante o dia inteiro”, exemplifica.

O ideal, segundo ela, é procurar reduzir as áreas de transparência para diminuir a entrada de calor. Ao mesmo tempo, o aproveitamento da iluminação natural deve ser maximizado. As janelas altas, junto ao teto, ajudam a distribuir melhor a luz - o resultado é ainda melhor quando as superfícies internas apresentam cores claras para difundir a luminosidade no ambiente. Há outros recursos simples e eficientes para isso, como brises ou bandejas de luz - espécie de brise horizontal fixado no caixilho que se prolonga para o interior dos espaços, direcionando a luz para os pontos mais afastados das janelas.

Um erro comum é considerar apenas o sistema de ar condicionado para o conforto térmico no interior das edificações, opção responsável por grandes demandas de energia elétrica, e que ainda tem o inconveniente de não promover a renovação do ar, condição prejudicial à saúde humana. Segundo Roberta, depende do arquiteto buscar caminhos que eliminem ou pelo menos reduzam a necessidade de usar recursos artificiais para o condicionamento do ar. “A ventilação cruzada é a solução natural e eficiente”, diz ela. Para isso, é necessário prever aberturas em paredes opostas ou justapostas, ou mesmo no teto, forçando o fluxo de ar.

O dimensionamento da ventilação deve considerar o volume do ambiente, a quantidade de pessoas e a existência de equipamentos que geram calor, como computadores e lâmpadas. Ainda com referência às fachadas, as arquitetas alertam para a necessidade de grande cuidado na especificação do produto. “O vidro errado pode transformar o prédio em uma caixa concentradora de calor”, avisa Joana.

A legislação interfere diretamente na sustentabilidade da arquitetura. Segundo Roberta e Joana, não há no Brasil a regulamentação do desempenho que deve ter determinada edificação. “Se houvesse limite de consumo de água ou de energia por tipologia, teríamos projetos mais bem resolvidos”, acredita Joana. “Não temos sequer uma lei que preveja o K - coeficiente de transmissão global, fator que indica quanto calor por metro quadrado uma parede opaca pode deixar passar”, complementa Roberta.

A questão também é apontada por Daniela. “Na Holanda e no Reino Unido já funciona um código de obras que exige o estudo de viabilidade ambiental de uma edificação, o qual, por sua vez, determina quanta energia ela poderá demandar. Além disso, a legislação no Brasil permite falhas como lotes muito reduzidos, o que implica menores recuos, maiores áreas impermeabilizadas, grandes adensamentos ou edificações que barram a passagem do vento, entre muitas outras situações”, critica. Apesar da pouca ajuda encontrada nos códigos de obras, o arquiteto que deseja projetar e construir dentro dos princípios da arquitetura sustentável pode buscar parâmetros nas normas ISO 14000 ou na Agenda Hábitat, documentos que fornecem diretrizes para o desenvolvimento sustentável, explica Daniela.

Atualmente existem diversos produtos e materiais desenvolvidos de modo a preservar recursos naturais. Os já conhecidos sensores de presença, que apagam as luzes na ausência de pessoas, torneiras com fechamento automático, lâmpadas e reatores de baixo consumo são alguns deles.

Entre as novidades estão as surgidas em decorrência das novas metas estabelecidas pelo governo federal a partir do PBPQ-H-Programa Brasileiro da Qualidade e Produtividade do Hábitat, que, desde o início de 2003, limita a 6 litros o consumo de água por descargas em bacias sanitárias. Além da redução obrigatória, algumas empresas já se adiantaram e passaram a oferecer sistemas de descarga com dois tipos de acionamento: um para dejetos líquidos, que consome apenas três litros, e outro para dejetos sólidos, que utiliza o limite de seis litros. Há também uma nova válvula de descarga com fechamento automático que impede fluxos superiores a 6 litros, mesmo que o usuário fique pressionando o botão.

Há também empresas que fornecem sistemas construtivos com madeira proveniente do manejo de baixo impacto ambiental. Eles são compostos por peças de madeiras nobres, conectadas por elementos metálicos e que admitem qualquer tipo de fechamento e acabamento.

A construção civil também pode contar com painéis estruturais do tipo OSB, feitos com tiras de madeira cruzadas, que podem ser usados para os mais diversos fins, exceto a confecção de fôrmas para concreto. Eles foram desenvolvidos para travar estruturas com perfis de madeira ou de aço e são produzidos exclusivamente com pinus de reflorestamento. Admitem acabamento com verniz, lâminas de outras madeiras, laminado melamínico e até mesmo cerâmicas, desde que fixadas com argamassa colante (cimentcola).

Além dos materiais tradicionais, há uma alternativa para a utilização de plásticos. A novidade, chamada madeira sintética, foi desenvolvida como sistema estrutural para casas populares ou cabines, por exemplo. O plástico é moído e moldado na forma de tijolos, que posteriormente são encaixados como um brinquedo de armar. Suas paredes duplas, intercaladas por um colchão de ar, ajudam a controlar o aquecimento do interior. A cobertura é feita com embalagens do tipo tetrapack.

Texto resumido a partir de reportagem de Nanci Corbioli
Publicada originalmente em PROJETODESIGN Edição 277 Março 2003.
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